O recalque, o que chamo na história de ruptura, de transgressão, contestação, de destruição da ordem estabelecida, é uma constante, o coagulado que se estabece em Lavoura Arcaica, de Raduar Nassar. São dois mundos, grosso modo, que conflitam, mundos representados pela Lavoura Arcaica do Pai Iohána e seu filho André.
O mundo Lavoura Arcaica já é conhecido tanto na história quanto na literatura brasileira, foi apenas colocado de forma genial no escrito de Nassar. É de fato um mundo, a Lavoura Arcaica, vive por si mesmo- subsistente, precisa de ordens, para não ruir, uma lei legitimada: que no caso é a figura do patriarca, do pai. Iohána é a figura parda que controla tudo, calcado em sua autoridade secular. O controle nada democrático é mostrado na obra de forma sufocante, calculada, beirando a uma loucura racional, tensionando os demais personagens a uma renuncia de sua subjetividade, de seu lado humano: todos sem liberdade. Através do trabalho, da paciência, do amor à família, tudo defendido e dogmatizado pelos sermões do pai que é o pregador dessa igreja.
O mundo de André é o da contestação da Lavoura Arcaica do Pai: "Pedro, meu irmão, eram inconsistentes os sermões do pai". André, através de uma engenhosa e pela reflexão, percebe o quão é ruim a falta de liberdade. O quão é sufocante e desumano o cálculo, a hierarquia, o controle, era essa a conclusão pregado: " o horizonte da vida não era largo como parecia, não passando de ilusão, no meu caso, a felicidade que eu pudesse ter vislumbrado para além das divisas do pai; evitando conhecer os motivos ímpios da minha fuga". O lado de contestação de André é desde cedo, ele não via sentido naquele mundo do pai, da família: "a nossa desunião começou muito mais cedo do que você pensa, foi no tempo em que a fé me crescia virulenta na infância e em que eu era mais fervoroso que qualquer outro em casa". O amor consumado pela irmã Ana, incesto, era o åpice da contestação.
Esses dois mundos se batem, o estabelecido pelo pai: o da ordem, o do que a família sempre vencerá a partir da paciência , da razão, do equilíbrio e do filho André: desequilibrado, irracional, anárquico. No fim, um mundo vence: o mundo de André, pois o próprio pai é vítima da ira e mata a filha Ana, ao perceber que o seu mundo ruia, descobrindo seu crime de incesto. O pai, paradaxalmente, rompe o cálculo e se torna um André ao ir contra sua própria pregação: a família acima de tudo e o equilíbrio calculado.
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