quinta-feira, 18 de julho de 2019

UMA CARTOGRAFIA DO BRASIL: " MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIA"

     A obra em folhetim, originalmente, que tinha como pretensão audiência, uma espécie de telenovela hemerográfica, "MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILICIAS", escrito por Manuel António de Almeida, é uma amostra, uma cartografia do Brasil. Dito isso, resta a pergunta: Mas em que consiste esta cartografia brasileira? Bom, uma cartografia deve representar um quado, onde tenhamos nele alguns itens que possamos identificar e tirar daí um significado. É essa a impressão que fica ao ler a citada obra. Há claramente uma REPRESENTAÇÃO SOCIAL da cultura brasileira (não toda), mesmo o enredo transcorrido no Rio de Janeiro e no século XIX.
     A moldura que move os personagens é uma sociedade: católica, desigual, machista, violenta, malandra, corrupta. Há!, mas só coisas ruins? A conclusão deste que vos escreve é essa. Porém, há uma espécie de culto a isso: Me parece que há uma louvação ao ANTI-HERÓI, no caso em tela o personagem principal, o sargento de Milícia Leonardo. Envolvido na infância por um drama familiar, ver-se abandonado pelo pai e pela mãe. O que lhe salva é a cultura católica do compadrio. A madrinha, a Comadre, é uma verdadeira mãe, cuida, preocupa-se, lhe afaga. O padrinho, o Compadre, lhe educa, ama, sustenta e lhe orienta. Há uma certo determinismo genético: O sargento de Milícia Leonardo está fadado a ser tão como o pai, Leonardo Pataca, vadio, raparigo, um desviante. Ambos assim o são e são salvaguardados pela compadrio: amizades, jeitinhos , gambiarras. 
     No fim, há uma recompensa: É feliz! Tem um final feliz. Nesse sentido, a trama em torno do sargento de Milícia Leonardo é a cartografia de um Brasil que se mantém vivo até hoje.  

sábado, 26 de janeiro de 2019

Talvez, uma percepção diferente de D. Júlia da obra O Manicaca: "sou dona do meu chibiu!"

       A obra O Manicaca, do piauiense Abdias Neves, é sem dúvidas uma livro que traz como pano de fundo o cotidiano da Teresina de fins do século XIX e início do XX. Uma cidade eivada de religiosidade católica e sua versão popular carregada de misticismos. A narrativa tem como dinâmica principal o casamento de D. Júlia e do comerciante Araújo. 
       D. Júlia é filha de retirante cearense que encontrou em Teresina o refúgio da seca que afetava todo nordeste, não diferente do Piauí, porém com pontos de bonança propiciada pelo rio Parnaíba. Menina bonita, que chamava atenção pela beleza e conquistava tudo por ela, acostumou-se a reinar soberana, mesmo com a monarquia institucional do pai e de todo realidade social que desfavorecia uma mulher independente, dona de seu fucim. 
       Usando de táticas, D. Júlia namora com um jovem guardador de livros, Luís Borges. Fato que imediatamente desagrada o pai: que queria um bacharel, um partidão! D. Júlia não desiste. Mesmo com a desaprovação do pai, utiliza-se da paciência e do calculismo para viver um amor as escondidas. É quase deflorada por Luís Borges se não fosse pega pelo pai que volta mais cedo de um encontro político. 
       Para salvar a honra da filha, o velho pai "coroné", enriquece em Teresina pelo comércio e compra esse título, tenta matar Luís Borges pela ousadia de estar na alcova com sua filha. Não conseguindo, planeja o casamento da filha, aproveitando-se da autoridade de mando da qual cabia a filha OBDC. Escolhe para desposar a filha um amigo comerciante, Araújo, homem mais velho e viúvo, que não pensou 2 vezes com o convite que lhe parecia um presente: uma linda mulher e um dote!
       D. Júlia perde seu amor, perde sua liberdade e para sobreviver... entrega seu chibiu, sendo deflorada. Cabia-lhe um dispositivo, uma estratagema, que foi protelada com a perda de sua virgindade com um homem que não queria: a traição e o mando.
       Se impor, mostrar ao marido que quem manda era ela, fazendo-o torna-se um manicaca- termo utilizada para o homem que se deixar controlar pela mulher, era o meio de D. Júlia se firmar e não desvanecer com a perda de sua liberdade. 
       Lendo de uma forma direta e sem perceber uma personagem tensionada, não lhe caberia outra alcunha como a de: adúltera, traidora, malvada, bandida. Porém, um leitura cuidadoso e a percepção de suas motivações para tornar o marido um manicaca são entendíveis e complacentes. O manicaca sabia que a mulher se casara sem vontade, sabia que não lhe tinha amor. Mesmo assim, o personagem Araújo aceita a empreitada achando que poderia mandar nas vontades da mulher. Pela paixão se torna submisso , mas consciente que  seu erro inicial era um preço que lhe seria cobrado. E foi, ao ser abandonado pela mulher que fosse com seu amor e lhe deixa a míngua nas margens do rio Parnaíba.  O recado foi-lhe dado: "sou dona do meu chibiu!"