terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A CONFISSÃO DE UM EX-MAGAREFE

"Foi assim, eu senti que a
bichinha sentiu um susto. E outra vez eu comprei uma vaca, levei pra casa e ela passou a noite chamando o garrote dela. Até na hora que foi abatida. Eu matava os porquinhos. Ficava com pena dos bichim...caia durim no chão. Eu não gostava de matar cabra com filhos não. Os bichim gritava sem a mãe. Eu me sentia mal com isso!Eu nao gostei da profissão, era o jeito. Eu sou muito penoso." Seu Manoel da Paciência. 7/01/2020.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A ruína de um mundo: a Lavoura Arcaica, de Raduar Nassar

      O recalque, o que chamo na história de ruptura, de transgressão, contestação, de destruição da ordem estabelecida, é uma constante, o coagulado que se estabece em Lavoura Arcaica, de Raduar Nassar. São dois mundos, grosso modo, que conflitam, mundos representados pela Lavoura Arcaica do Pai Iohána e seu filho André. 
       O mundo Lavoura Arcaica já é conhecido tanto na história quanto na literatura brasileira, foi apenas colocado de forma genial no escrito de Nassar. É de fato um mundo, a Lavoura Arcaica, vive por si mesmo- subsistente, precisa de ordens, para não ruir, uma lei legitimada: que no caso é a figura do patriarca, do pai. Iohána é a figura parda que controla tudo, calcado em sua autoridade secular. O controle nada democrático é mostrado na obra de forma sufocante, calculada, beirando a uma loucura racional, tensionando os demais personagens a uma renuncia de sua subjetividade, de seu lado humano: todos sem liberdade. Através do trabalho, da paciência, do amor à família, tudo defendido e dogmatizado pelos sermões do pai que é o pregador dessa igreja. 
      O mundo de André é o da contestação da Lavoura Arcaica do Pai: "Pedro, meu irmão, eram inconsistentes os sermões do pai". André, através de uma engenhosa e pela reflexão, percebe o quão é ruim a falta de liberdade. O quão é sufocante e desumano o cálculo, a hierarquia, o controle, era essa a conclusão pregado: " o horizonte da vida não era largo como parecia, não passando de ilusão, no meu caso, a felicidade que eu pudesse ter vislumbrado para além das divisas do pai; evitando conhecer os motivos ímpios da minha fuga". O lado de contestação de André é desde cedo, ele não via sentido naquele mundo do pai, da família:  "a nossa desunião começou muito mais cedo do que você pensa, foi no tempo em que a fé me crescia virulenta na infância e em que eu era mais fervoroso que qualquer outro em casa". O amor consumado pela irmã Ana, incesto, era o åpice da contestação.
      Esses dois mundos se batem, o estabelecido pelo pai: o da ordem, o do que a família sempre vencerá a partir da paciência , da razão, do equilíbrio e do filho André: desequilibrado, irracional, anárquico. No fim, um mundo vence: o mundo de André, pois o próprio pai é vítima da ira e mata a filha Ana, ao perceber que o seu mundo ruia, descobrindo seu crime de incesto. O pai, paradaxalmente, rompe o cálculo e se torna um André ao ir contra sua própria pregação: a família acima de tudo e  o equilíbrio calculado.